Semaglutida pode afetar a visão? Entenda os possíveis efeitos oculares dos análogos de GLP-1
Os medicamentos que atuam na via do GLP-1 ganharam grande espaço no tratamento do diabetes tipo 2 e da obesidade. Além de contribuírem para o controle da glicemia e para a redução do peso, alguns deles também apresentam benefícios cardiovasculares bem estabelecidos.
Com o aumento do uso dessas medicações, surgiram dúvidas sobre possíveis efeitos sobre a visão. Entre os principais temas estudados estão a retinopatia diabética e uma condição rara que afeta o nervo óptico, chamada neuropatia óptica isquêmica anterior não arterítica, também conhecida pela sigla NOIA-NA.
Mas o que realmente sabemos até agora?
Semaglutida e retinopatia diabética
A discussão sobre retinopatia ganhou destaque após estudos realizados com pacientes com diabetes tipo 2 e elevado risco cardiovascular, nos quais foi observada maior ocorrência de complicações relacionadas à retinopatia em determinados grupos tratados com semaglutida.
Entretanto, isso não significa necessariamente que a semaglutida provoque uma lesão direta na retina.
Uma das principais explicações é que uma redução rápida e intensa da glicemia e da hemoglobina glicada pode provocar piora inicial da retinopatia em algumas pessoas que já apresentam doença ocular relacionada ao diabetes.
Esse fenômeno não é exclusivo dos medicamentos da classe GLP-1. Ele já era conhecido em pacientes com diabetes submetidos a uma intensificação importante do controle glicêmico.
Uma revisão sistemática e meta-análise publicada em 2025, envolvendo dezenas de ensaios clínicos e mais de 70 mil participantes, não encontrou aumento significativo do risco global de retinopatia diabética com a semaglutida.
Por isso, a atenção deve ser maior principalmente em pacientes com diabetes de longa duração, controle glicêmico inadequado e retinopatia diabética previamente conhecida, especialmente quando se espera uma redução importante da glicemia em pouco tempo.
Nessas situações, o acompanhamento oftalmológico é particularmente importante.
E o nervo óptico?
Nos últimos anos surgiu outra preocupação: uma possível associação entre a semaglutida e a neuropatia óptica isquêmica anterior não arterítica, ou NOIA-NA.
A NOIA-NA ocorre quando há redução do fluxo sanguíneo para uma parte do nervo óptico. Pode provocar perda ou redução da visão, geralmente em apenas um dos olhos e, muitas vezes, sem dor.
Após a publicação de estudos observacionais sugerindo uma possível associação, diferentes grupos de pesquisadores passaram a investigar essa relação.
Os resultados ainda não são totalmente uniformes, mas alguns estudos encontraram um aumento do risco de NOIA-NA entre usuários de semaglutida. Como o número absoluto de eventos é pequeno, ainda existem incertezas sobre a dimensão exata desse risco.
O que dizem atualmente as agências regulatórias?
Em 2025, o comitê de segurança da Agência Europeia de Medicamentos analisou estudos clínicos, dados epidemiológicos e informações de farmacovigilância e concluiu que a NOIA-NA deve ser considerada um efeito adverso muito raro da semaglutida.
A recomendação se refere aos medicamentos que contêm semaglutida utilizados tanto no tratamento do diabetes quanto da obesidade.
Isso não significa que a complicação seja frequente nem que os benefícios da medicação deixem de existir. Significa que médicos e pacientes devem conhecer essa possibilidade e estar atentos a sintomas sugestivos.
A perda de visão causada pela NOIA-NA é reversível?
A recuperação é variável.
Algumas pessoas podem apresentar melhora parcial espontânea da visão ao longo dos meses, mas a lesão do nervo óptico pode deixar sequelas permanentes, principalmente alterações do campo visual.
Atualmente, não existe um tratamento comprovado capaz de restaurar completamente o nervo óptico depois que a NOIA-NA ocorre.
Por isso, não é adequado dizer que a condição seja necessariamente irreversível, mas também não se pode garantir recuperação completa.
Qualquer perda súbita ou redução importante da visão durante o tratamento deve ser avaliada rapidamente.

Existe algum problema oftalmológico que aumente o risco de NOIA-NA?
Sim. Uma das características mais associadas à NOIA-NA é uma anatomia conhecida como “disco óptico de risco”.
Nesse caso, o nervo óptico apresenta uma escavação muito pequena ou praticamente ausente, o que deixa as fibras nervosas mais agrupadas em um espaço reduzido. Se ocorre diminuição da circulação e essas fibras incham, há pouco espaço para acomodar esse edema. Com isso, os pequenos vasos da região podem ficar ainda mais comprimidos, reduzindo ainda mais o fluxo sanguíneo para o nervo óptico.
Estudos mais recentes mostram que essa anatomia é muito frequente entre pacientes que desenvolvem NOIA-NA, inclusive entre usuários de medicamentos da classe GLP-1.
Entretanto, isso ainda não significa que pessoas com essa característica necessariamente desenvolverão a doença ao utilizar semaglutida.
Além da anatomia do nervo óptico, outros fatores estão associados à NOIA-NA, como:
* diabetes;
* hipertensão arterial;
* dislipidemia;
* apneia obstrutiva do sono;
* outros fatores de risco vascular.
Quem já apresentou NOIA-NA em um dos olhos também apresenta maior risco de desenvolver o problema no outro olho.
Todo paciente precisa passar pelo oftalmologista antes de iniciar semaglutida?
Não.
Não existe atualmente recomendação para que todas as pessoas realizem uma avaliação oftalmológica apenas porque vão iniciar semaglutida. Pacientes com diabetes devem manter o rastreamento oftalmológico recomendado para retinopatia diabética, independentemente do uso de GLP-1.
A avaliação merece atenção especial em pessoas que já apresentam retinopatia diabética, principalmente quando se espera uma melhora importante e rápida do controle glicêmico.
Também pode ser razoável individualizar a avaliação em pacientes com:
* história prévia de NOIA-NA;
* história de perda visual inexplicada;
* doença conhecida do nervo óptico;
* alterações oftalmológicas relevantes previamente identificadas.
Apesar da forte associação entre o chamado disco óptico de risco e a NOIA-NA, ainda não existem evidências suficientes para recomendar que todas as pessoas realizem exames específicos do nervo óptico antes de iniciar semaglutida.
Esse risco vale para todos os análogos de GLP-1?
Até o momento, não existem evidências suficientes para afirmar que esse seja um efeito de toda a classe.
A evidência mais consistente e a avaliação regulatória atual concentram-se na semaglutida.
Também é importante lembrar que os medicamentos utilizados atualmente para diabetes e obesidade não são idênticos. A tirzepatida, por exemplo, atua simultaneamente sobre os receptores de GIP e GLP-1 e não deve ter seus possíveis efeitos adversos simplesmente extrapolados a partir dos estudos realizados com semaglutida.
Ainda são necessários estudos específicos para compreender melhor se existe efeito semelhante com outras moléculas.
Quais sintomas devem chamar atenção?
Pessoas que utilizam semaglutida devem procurar avaliação médica diante de alterações visuais importantes, principalmente:
* perda súbita da visão;
* redução importante da visão em um dos olhos;
* piora visual rápida;
* aparecimento de alteração visual persistente sem explicação aparente.
Caso exista suspeita de comprometimento do nervo óptico, a avaliação oftalmológica deve ser realizada rapidamente.
Quando o diagnóstico de NOIA-NA é confirmado, a recomendação atual da Agência Europeia de Medicamentos é interromper o tratamento com semaglutida.
Então a semaglutida faz mal aos olhos?
De maneira geral, não podemos afirmar isso.
A grande maioria das pessoas utiliza semaglutida sem desenvolver complicações oculares.
O que sabemos atualmente é que existem duas situações diferentes que merecem atenção.
A primeira é a possibilidade de piora inicial de uma retinopatia diabética já existente quando ocorre uma redução muito rápida da glicemia.
A segunda é a identificação da NOIA-NA como uma reação adversa muito rara associada à semaglutida, que afeta o nervo óptico e continua sendo estudada.
Essas informações não devem ser motivo para interromper uma medicação por conta própria nem significam que todo paciente precise realizar avaliação oftalmológica antes de iniciar o tratamento.
Medicamentos como a semaglutida apresentam benefícios importantes quando corretamente indicados. O mais adequado é utilizá-los com acompanhamento médico, considerando as características de cada paciente, os benefícios esperados e os possíveis riscos.
O tratamento da obesidade e do diabetes deve buscar não apenas a redução do peso ou da glicemia, mas também segurança e proteção da saúde a longo prazo.