Anabolizantes e insuficiência cardíaca: entenda os riscos para o coração

O uso de anabolizantes para fins estéticos pode trazer consequências que vão muito além da aparência física. Embora essas substâncias sejam procuradas principalmente para aumento de massa muscular e melhora do desempenho, seu uso em doses suprafisiológicas pode causar alterações importantes no coração e aumentar o risco de doenças cardiovasculares.

Nos últimos anos, estudos vêm mostrando uma associação cada vez mais consistente entre o uso de esteroides anabolizantes androgênicos e problemas como cardiomiopatia, insuficiência cardíaca, arritmias, infarto e aterosclerose precoce.
Em 2026, a nova Diretriz Europeia de Insuficiência Cardíaca reforçou a importância da prevenção, do reconhecimento precoce e da intervenção antes que a doença evolua para fases sintomáticas.

O que são os esteroides anabolizantes?
Os esteroides anabolizantes androgênicos são substâncias relacionadas à testosterona. Eles podem aumentar a massa muscular e a força, razão pela qual são utilizados de maneira não médica em alguns ambientes esportivos e, principalmente, com finalidade estética.

Nesse contexto, é importante diferenciar o uso terapêutico da testosterona, quando existe indicação médica adequada, do uso de anabolizantes em doses suprafisiológicas, frequentemente associado a “ciclos”, combinações de diferentes substâncias e doses muito superiores às utilizadas para reposição hormonal.
Entre as substâncias mais conhecidas estão testosterona, nandrolona, oxandrolona e estanozolol.

Anabolizantes podem causar insuficiência cardíaca?
Sim. O uso prolongado de anabolizantes tem sido associado a alterações estruturais e funcionais do coração capazes de favorecer o desenvolvimento de cardiomiopatia e insuficiência cardíaca.

Um estudo publicado no Circulation em 2017 avaliou homens com histórico prolongado de uso de esteroides anabolizantes e encontrou pior função sistólica e diastólica do ventrículo esquerdo em comparação com homens que não utilizavam essas substâncias. Os usuários também apresentavam maior quantidade de placas nas artérias coronárias.

Como os anabolizantes podem prejudicar o coração?
Os mecanismos são diversos e podem ocorrer simultaneamente.

1. Aumento anormal do músculo cardíaco
Os anabolizantes podem favorecer hipertrofia do miocárdio, ou seja, aumento da espessura do músculo do coração.
Esse crescimento não significa necessariamente um coração mais forte.
Quando ocorre de maneira patológica, pode deixar o ventrículo mais rígido, dificultar seu relaxamento e prejudicar o enchimento cardíaco.

2. Piora da força de contração
O coração também pode perder capacidade de bombear adequadamente o sangue.
No estudo publicado no Circulation em 2017, os usuários de anabolizantes apresentaram fração de ejeção média de 52%, enquanto os não usuários apresentaram aproximadamente 63%.
Essas alterações podem contribuir para o desenvolvimento de cardiomiopatia e insuficiência cardíaca.

3. Fibrose do músculo cardíaco
O uso prolongado também pode estar relacionado a alterações estruturais que favorecem fibrose, ou seja, formação de tecido cicatricial no músculo cardíaco.
A fibrose pode comprometer tanto a contração quanto o relaxamento do coração e também favorecer o aparecimento de arritmias.

4. Alterações do colesterol
Os anabolizantes podem piorar de forma importante o perfil lipídico, principalmente com redução do HDL e aumento do LDL.
Essas alterações favorecem a formação de placas nas artérias e contribuem para o desenvolvimento de aterosclerose, aumentando o risco de doença arterial coronariana e infarto.

5. Aterosclerose precoce
Os efeitos dos anabolizantes não ficam restritos ao músculo cardíaco.
No mesmo estudo do Circulation de 2017, os usuários apresentaram maior volume de placas nas artérias coronárias. Além disso, quanto maior a exposição acumulada aos anabolizantes ao longo da vida, maior foi a carga de aterosclerose encontrada.
Isso ajuda a explicar por que pessoas relativamente jovens podem apresentar doença coronariana e até infarto.

6. Arritmias
Alterações estruturais, hipertrofia, fibrose e comprometimento da função ventricular podem favorecer o aparecimento de arritmias.
O problema não se limita a palpitações benignas. Dependendo do contexto, podem ocorrer arritmias clinicamente importantes.
O que mostrou o grande estudo do Circulation de 2025?
Em 2025, outro trabalho publicado no Circulation trouxe dados particularmente importantes sobre a associação entre anabolizantes e doenças cardiovasculares.
Esse estudo comparou 1.189 usuários de esteroides anabolizantes com 59.450 indivíduos controles da população dinamarquesa, com acompanhamento médio de aproximadamente 11 anos.

Os usuários apresentaram maior ocorrência de diversas doenças cardiovasculares.
Os principais resultados foram:
* cardiomiopatia: risco aproximadamente 8,9 vezes maior;
* insuficiência cardíaca: risco aproximadamente 3,6 vezes maior;
* infarto: risco aproximadamente 3 vezes maior;
* arritmias: risco aproximadamente 2,3 vezes maior.

O estudo também encontrou aumento de eventos tromboembólicos e de procedimentos de revascularização coronariana.
Esses números são particularmente relevantes porque mostram que o problema não se limita a alterações encontradas em exames de imagem.
O uso de anabolizantes esteve associado a eventos cardiovasculares clínicos importantes ao longo do seguimento.

Como se trata de um estudo observacional, ele demonstra associação e não permite afirmar que os anabolizantes foram a única causa de cada evento.

Ainda assim, a magnitude das associações, somada aos estudos de imagem e aos mecanismos biológicos conhecidos, torna esses achados bastante relevantes.

Insuficiência Cardíaca
Insuficiência Cardíaca

O que mudou com a Diretriz Europeia de Insuficiência Cardíaca de 2026?
A Diretriz Europeia de Insuficiência Cardíaca publicada em agosto de 2026 trouxe maior ênfase à prevenção, ao reconhecimento precoce e à intervenção nos estágios anteriores à insuficiência cardíaca sintomática.

Esse conceito é especialmente importante em pessoas expostas a fatores capazes de contribuir para lesão do coração.

Na prática, o histórico de uso de anabolizantes deve ser valorizado quando existem alterações cardíacas sem outra explicação evidente.

A mensagem principal é clara: evitar exposições capazes de prejudicar o coração também faz parte da prevenção da insuficiência cardíaca.

O coração pode melhorar depois da suspensão dos anabolizantes?
Parte das alterações pode melhorar após a interrupção do uso, principalmente quando o problema é identificado precocemente.
Entretanto, isso não acontece obrigatoriamente em todos os casos.
Alterações estruturais mais avançadas, fibrose miocárdica ou aterosclerose coronariana podem persistir.

Por isso, não é adequado considerar que basta interromper o uso para que todos os efeitos desapareçam.

Quais sinais podem indicar que o anabolizante afetou o coração?
Algumas pessoas permanecem sem sintomas nas fases iniciais.

Quando surgem manifestações, podem ocorrer:
* falta de ar durante atividades que antes eram bem toleradas;
* queda da capacidade para exercícios;
* cansaço fora do habitual;
* palpitações;
* dor ou desconforto no peito;
* tonturas;
* desmaios;
* inchaço nas pernas.

A ausência de sintomas não exclui alterações cardíacas.
Em alguns pacientes, o primeiro sinal pode aparecer justamente em exames como eletrocardiograma, ecocardiograma ou ressonância cardíaca.

Quando suspeitar de comprometimento cardíaco relacionado aos anabolizantes?
A avaliação cardiovascular deve ser considerada principalmente quando existe:
* uso atual ou prolongado de esteroides anabolizantes;
* histórico de vários “ciclos”;
* uso combinado de diferentes substâncias;
* alterações importantes do colesterol;
* hipertensão;
* palpitações;
* falta de ar;
* queda do desempenho físico;
* alterações no eletrocardiograma;
* aumento inexplicado do músculo cardíaco;
* redução da função ventricular.

Essa possibilidade deve ser considerada especialmente em homens jovens ou de meia-idade que apresentem alterações cardíacas sem uma causa clara.
É importante perguntar diretamente sobre testosterona, nandrolona, oxandrolona, estanozolol e outras substâncias.

Muitos pacientes não relatam espontaneamente esse histórico por não considerarem o uso estético como uma informação médica relevante.

Quais exames podem avaliar os efeitos dos anabolizantes no coração?
A investigação deve ser individualizada.

Dependendo do histórico, dos sintomas e do exame clínico, podem ser considerados:
Eletrocardiograma
Avalia o ritmo cardíaco e pode identificar alterações elétricas ou sinais relacionados à hipertrofia.
Ecocardiograma
Permite avaliar:
* espessura das paredes do coração;
* tamanho das câmaras cardíacas;
* função sistólica;
* função diastólica;
* fração de ejeção.

O strain longitudinal global também pode ser utilizado para detectar alterações mais precoces da função do músculo cardíaco, inclusive antes de uma redução importante da fração de ejeção.

Holter
Pode ser indicado quando existem palpitações ou suspeita de arritmias.

Ressonância cardíaca
Em casos selecionados, pode ajudar na avaliação da estrutura do coração, da função ventricular e da presença de fibrose.

Exames laboratoriais
Colesterol, hematócrito, função renal, eletrólitos e outros parâmetros podem complementar a avaliação.

Avaliação das artérias coronárias
Pode ser necessária dependendo da idade, dos sintomas, dos fatores de risco e do histórico de exposição.

Uso de anabolizantes para fins estéticos é seguro para o coração?
As evidências disponíveis não permitem considerar o uso de anabolizantes em doses suprafisiológicas para fins estéticos como uma prática sem riscos para o coração.

O uso tem sido associado a alterações do músculo cardíaco, redução da função ventricular, aterosclerose precoce, arritmias, cardiomiopatia, insuficiência cardíaca e infarto.

O grande estudo do Circulation de 2025, com 1.189 usuários de anabolizantes, reforçou essa preocupação ao demonstrar associação com aumento expressivo de diferentes eventos cardiovasculares ao longo de aproximadamente 11 anos de acompanhamento.

Ser jovem, praticar exercícios regularmente ou ter boa condição física não elimina esses riscos.

Quando procurar um cardiologista em Campinas?
Quem utiliza ou já utilizou anabolizantes para fins estéticos pode se beneficiar de uma avaliação cardiológica, especialmente quando houve uso prolongado, vários ciclos, doses elevadas ou combinação de diferentes substâncias.
Também é importante procurar um cardiologista diante de:
* falta de ar;
* palpitações;
* dor no peito;
* desmaios;
* queda do desempenho físico;
* pressão arterial elevada;
* alterações do colesterol;
* alterações no eletrocardiograma;
* aumento do músculo cardíaco;
* redução da função do coração.

Durante a consulta, informações como quais substâncias foram utilizadas, doses aproximadas, duração do uso, número de ciclos e combinações realizadas ajudam a definir quais exames realmente são necessários.
A avaliação cardiovascular pode incluir consulta cardiológica, eletrocardiograma e, quando indicado, exames complementares para investigar possíveis repercussões do uso de anabolizantes sobre o coração.
Conclusão

Anabolizantes podem mudar o corpo — e também o coração.
O uso para fins estéticos, especialmente em doses suprafisiológicas e por períodos prolongados, está associado a alterações importantes do sistema cardiovascular.
Os estudos mostram associação com cardiomiopatia, insuficiência cardíaca, infarto, arritmias e aterosclerose precoce.

O estudo publicado no Circulation em 2017 ajudou a demonstrar alterações na função do coração e maior quantidade de placas coronarianas em usuários de longo prazo.
Já o grande estudo do Circulation de 2025, com 1.189 usuários e 59.450 controles, demonstrou associação com aumento expressivo de eventos cardiovasculares ao longo do tempo.

A Diretriz Europeia de Insuficiência Cardíaca de 2026 reforça a importância de agir antes que a doença se torne sintomática, valorizando prevenção, reconhecimento precoce e intervenção oportuna.
Por isso, quem utiliza ou já utilizou anabolizantes deve informar esse histórico durante a avaliação médica. Identificar alterações precocemente pode fazer diferença no acompanhamento e na prevenção de complicações.